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sábado, 26 de janeiro de 2008

Vale a pena uma "Conduta de risco"



Eu não pretendia escrever sobre esse filme. Na realidade, minha intenção neste final de semana era escrever sobre “O gângster”, de Ridley Scott. Achei o filme bom, com um Denzel Washington soberbo ofuscando o clichê de Russell Crowe. Mas não me animei. Pensei que ficarei sem escrever nada e que, na hora que surgisse a vontade e o assunto, escreveria qualquer coisa.

Hoje fui numa reunião e, já que voltava dela num bom horário, decidi arriscar um dos filmes indicados para o Oscar. Quando era mais novo, tinha o hábito de ir assistir, pelo menos, os cinco indicados para melhor filme. Nos anos passados, devido a diversos problemas, não fiz isso. Esse ano pretendo fazê-lo. Somente por isso que fui assistir a “Conduta de risco”. Não queria ver um George Clooney sempre igual, com aquela cara de Batman velho ou de médico de emergência. A cara de bom moço e a excelente dicção há muito me enjoaram (o contrário de quando ele está como diretor, mas este é assunto para outro texto). O diretor do filme também é um desconhecido: Tony Gilroy. Sei que é seu primeiro filme como diretor, mas dei uma olhada no Google e vi que é um roteirista experiente. Entre eles, dois filmes que gosto muito: “Eclipse total” e, principalmente, “Advogado do diabo”.

Fui sentindo-me um intruso, pois não queria estar lá. Sentia que a platéia somente sentava naquelas poltronas por causa das indicações do Oscar. Certíssimo: eu também estava lá por causa disso!

O filme abre com um depoimento em off introduzindo o escritório de advocacia. A montagem é suave e o depoimento é perturbante. Aos poucos emergimos na história que, de início, é difícil de entender. O galãzão é Michael Clayton (que, por sinal, é o título do filme), um advogado que possui um cargo diferenciado no escritório: solucionar problemas. Quais problemas? Qualquer um. Eis que surge um problema enorme e ele se envolve, tem um amigo relacionado, e blá blá blá. O enredo não é o que importa. O que me atraiu no filme foi o tratamento dado à história. Por ter um monte de advogados envolvidos, me lembrou os filmes baseados em John Grisham. Mas é melhor. Consegue ser bem menos “rocambolesco” do que “A firma” (o melhor deles), mais profundo que “O cliente” e “Dossiê Pelicano” (que é um lixo) e mais atraente do que “O júri” (porque este... nem vi).

A fotografia do filme é escura, sem exagerar nas sombras e contrastes, mas a montagem é perfeita. É uma montagem sóbria, que cria suspense quando tem que criar, surpreende nos momentos certos e, ao mesmo tempo, não necessita de subterfúgios complexos para alinhar a narrativa. Trabalha o filme todo num flashback curto, de quatro dias. Geralmente, quando se utiliza deste artifício, os cineastas costumam fazer longos flashbacks de meses e semanas. Nisso, a história fica muito fragmentária, cheia de elipses, para que no curto espaço de duas horas de projeção tudo seja contado. Talvez seja isso que tenha me incomodado em “O gângster” – em duas horas e meia querer contar mais de uma década de história.

Tony Gilroy se concentra nestes quatro dias anteriores e nos subseqüentes e consegue extrair densidade de uma história que, num primeiro momento, pareceria banal. Enfim, achei tudo muito bem ajustado, correto, sem exibicionismo ou qualquer tentativa de supervalorização. Em sua simplicidade, “Conduta de risco” satisfaz, entretem e conta a história que se propôs a contar.


terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Mais um desperdício na seara cinematográfica

Infelizmente, já se tornou uma tradição. Atores e atrizes fazem grande sucesso, mas acabam por mergulhar nas armadilhas do destino e jogam suas vidas fora.

Heath Ledger participou de alguns bons filmes nos últimos anos. O mais marcante foi "O segredo de Brokeback Mountain", para mim uma das obras mais sensíveis dos últimos anos. Mas também teve uma rápida atuação em "A última ceia" e promete aterrorizar a todos como o novo Coringa no filme "Batman, o cavaleiro das trevas", que será lançado no Brasil provavelmente em agosto. Foi encontrado morto no banheiro de seu apartamento, com um vidro de pílulas para dormir tombada a seu lado.

Não precisamos ir longe para lamentar algumas perdas. No início desta semana, Brad Renfro perdeu a vida por causa do vício pelas drogas. Quantos mais? James Dean parou esmagado dentro de seu carro esportivo, River Phoenix partiu após uma overdose de diversas porcarias... Natalie Wood morreu afogada. Grace Kelly, acidentada (apesar de naquela época já ter desistido de atuar, mas não da coroa do Principado). O belíssimo Montgomery Clift e o mito Marilyn Monroe sucumbiram às drogas, aos remédios e ao alcoól. Chris Farley também teve uma overdose. Isso porque não entro no mérito dos músicos, pois a lista seria até maior, com Jimmy Hendrix, Jim Morrison e Janis Joplin apenas de abertura.

Fico a imaginar o que teríamos agora se estas mortes não tivessem ocorrido. Se James Dean teria se tornado um ícone similar ao que se tornou com seu desaparecimento precoce. Será que Marilyn seria o mito que é se não tivesse morrido tão cedo? E se tivesse se deteriorado pelos anos, como aconteceu com Elizabeth Taylor, que ficou resumida a papéis banalizantes que minimizaram seu talento mostrado nos anos 50 e 60?

O que este australiano faria no futuro será sempre uma incógnita. Poderemos especular baseados em sua capacidade demonstrada na sua curta trajetória.

Enfim, só nos resta lamentar.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Sobre um filme do qual não sei bem o que pensar

Um livro arrebatador... Uma história complexa e dramática, com personagens marcantes. Uma personagem, em especial, com o tempo poderá se tornar emblemática na literatura inglesa - Briony Tallis. Quando o livro "Reparação" esteve às minhas mãos, tive a certeza que folheava páginas de um futuro clássico. Ao mesmo tempo, considerava que daquela história poderia sair facilmente um filme. Enfim, sempre que leio algo não consigo evitar: penso nas imagens, como seria a montagem, quem seriam os atores... Qual o rosto que gostaria de dar para eles...

Quando vi que o livro de Ian McEwan tinha sido adaptado, fiquei na expectativa... Se não me engano, exibiram o filme pela primeira vez em Cannes. Eu nem sabia se viria para cá. Não sabia se era daqueles filmes apenas do circuito de arte. Desses, alguns vêm para o Brasil, e outros ficam no limbo, no meio do caminho, ou nem isso... no início do caminho... distribuição restrita. Mas esse não! Acabou que me surpreendi com as várias indicações que ele recebeu para o Globo de Ouro deste ano e o salto dele na mídia. Não houve festa, não houve comemoração, mas ganhou o prêmio de melhor filme de Drama do ano (essa Associação dos Críticos Estrangeiros premia separado - Drama de um lado, Musicais ou Comédias do outro). Dizem que o filme vai arrasar no Oscar... mas eu tenho as minhas dúvidas...

Acho uma covardia querer comparar um filme com o livro do qual ele é adaptado. Vou tentar não fazer isso, pois como já pode ver, sou um fã do livro. Tentei me desvincular do livro quando assisti e as críticas que tenho a respeito são meramente quanto à obra cinematográfica. Não dá para querer que um filme seja exatamente como o livro, pois é uma concorrência desleal comparar uma obra audiovisual com uma obra multisensorial- que é aquela que nasce em nossas mentes, em nossa imaginação. O roteiro do experiente Christopher Hampton é de arrasar. Ele consegue transportar a essencialidade do livro para a tela. Perde detalhes, alguns importantes, mas mantém o que é relevante. Faz as escolhas certas. Somente sentimos a falta destes detalhes que mencionei quando a revelação final aparece. Neste instante, parece que é tudo muito súbito. Perdemos um pouco daquela sensação de graduação, de acontecimentos e pensamentos que se sucedem de forma lógica. Mas, para isso, o ritmo do filme teria que ser quebrado. Bem, esta era uma barreira, um desafio, que o diretor Joe Wright tinha que enfrentar.

Porém, um filme que tinha tudo para ser belíssimo, se perde ao supervalorizar a destreza técnica. Ninguém quer que um filme seja mal feito, mas o exagero na plasticidade atrapalha em alguns momentos. Tem algo que me incomoda em alguns filmes brasileiros contemporâneos. O excesso de beleza na fotografia. São aqueles céus maravilhosos, vermelhos ao pôr-do-Sol, ou a chuva cadente em seus esplendor, iluminada pelos fantásticos raios que insistem em cruzar a planície. Bah! Percebi em "Desejo e reparação" um preocupação excessiva em fazer planos maravilhosos, cuidadinhos, com trocas de foco complexas e angulações "interessantes". Nas cenas exteriores, cores bem demarcadas, como o vermelho do céu (já virou clichê), ou o acizentado do praia de Dunquerque após a tomada pelos Aliados. Sem dizer naquele plano-seqüência de, parece, seis minutos, que vai de nada a lugar nenhum. Li em alguns lugares que o diretor justificou que aquele é um momento decisivo para o personagem de James McAvoy (por sinal, um excelente ator, como já havia demonstrado em "O último rei da Escócia"). Discordo. Pareceu puro exibicionismo técnico.

Ao mesmo tempo, a trilha sonora, sobre a qual li várias críticas negativas, é ótima. Inteligente, funcional e criativa. A montagem idem, apesar de, em alguns momentos, parecer que tem medo que não entendamos o que está acontecendo.

Terminei a sessão com a sensação de que algo faltou. Não foi alguma parte específica da história (pois li o livro já há uns dois anos e não lembro de forma concreta de algum trecho - somente lembro emocionalmente). Talvez, ao assistir novamente, eu me identifique melhor. Talvez eu necessite de mais tempo para o filme maturar em minha cabeça. Pelo menos, deu para escrever alguma coisa a respeito, e dividir com você. Mas realmente ainda não sei bem o que pensar.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Sombras de Goya - uma película 'multi-pátrias'



Não lembro qual foi o primeiro filme de Milos Forman que tive o prazer de assistir. Seja qual for, todos os que vi gostei. Acredito que o primeiro foi “Amadeus”, um épico-drama-de-humor-negro. Depois, vieram os outros: “Um estranho no ninho” e os atuais, como “O povo vs. Larry Flint” e “O mundo de Andy”. Esse diretor tcheco iniciou sua carreira na antiga Tchecoslováquia mas depois foi exportado pelos americanos para fazer sucesso naquela terra do Tio Sam.

Natalie Portman já é conhecida do público cinéfilo. Aqueles que viram aquela menininha de original israelense surgir em “O profissional”, de Luc Besson, sabiam que se tornaria uma estrela. Alguns anos se passaram e teve performances marcantes – a principal em “Closer – Perto Demais”.

O espanhol Javier Bardem chamou a atenção de todos em “Carne trêmula”, de Almodóvar. Mas já havia participado de outros filmes de destaque, como aquele dos presuntos, de Bigas Luna: “Jamon, Jamon”. Antes disso viveu um tempo em Búzios, com seu irmão, mas hoje faz diversos filmes pelo mundo, impulsionado tanto por aqueles primeiros sucessos, quanto por sua atuação em “Mar adentro”, Oscar de Filme Estrangeiro de 2004. Dizem que sua atuação em “Onde os fracos não têm vez”, o western sui generis dos irmãos Coen que será lançado aqui em fevereiro, é excepcional.

Stellan Skarsgard é sueco e um coadjuvante comum nos filmes americanos. Podemos vê-lo em filmes como “Gênio Indomável” e “Ronin”. Porém, suas melhores aparições estão nos filmes de Lars von Trier, especialmente em “Ondas do destino”. É um ator forte e expressivo, mas possui alguns defeitos.

Quando descrevemos uma unanimidade, deve-se tomar cuidado para não exagerar nos elogios. Assim, quanto ao roteirista francês Jean-Claude Carriére, já falará por si enumerar os filmes aos quais roteirizou e o nome de um dos melhores livros de roteiro que já li: “A linguagem secreta do cinema”. Alguns dos seus filmes são: “O diário de uma camareira”, “A bela da tarde”, “Via Láctea”, “O discreto charme da burguesia”, “O fantasma da liberdade” e “Esse obscuro objeto do desejo”, todos de Buñuel. Também há a adaptação dos clássicos: de Günther Grass, “O tambor”; de Kundera “A insustentável leveza do ser”; de Rostand “Cyrano de Bergerac”; de Dostoievski, “Os possuídos” (‘Os demônios’). Dentre muitos outros filmes, também há Danton, de Wajda. O que dizer a mais?

Esses cinco artistas de diferentes países se encontraram, para criar uma obra que, em si só, já retrata uma mistura. “Sombras de Goya” (Goya’s Ghosts) ocorre na época da Inquisição Espanhola e envolve não apenas eles quanto franceses e ingleses. Não se atém a um fato isolado, mas expõe a complexidade de relações envolvidas num período de animalidade em que o poder clerical era utilizado como moeda de troca pelos mais diversos fins. A figura do pintor Francisco de Goya apenas surge como uma ligação e um ponto de encontro das tramas advindas. Stellan Skarsgard faz o pintor que busca auxiliar a jovem Inês (Natalie Portman) que é submetida ao interrogatório do Santo Ofício e encarcerada injustamente em seus porões. Em meio a este acontecimento, está o clérigo Lorenzo (Javier Bardem), personagem que sofre diversas reviravoltas, característica de sua personalidade ímpia e aproveitadora.

Há cerca de um ano, o livro “Os fantasmas de Goya” foi lançado aqui no Brasil, tendo como autores o diretor Milos Forman e o roteirista Jean-Claude Carriére. Confesso que o tema não me atraiu muito. Acabei por ir assistir devido à recomendação de algumas pessoas e matérias positivas que li na mídia.

Realmente, é um filme diferente, envolto por uma atmosfera purulenta, sem poupar o espectador das atrocidades que quer retratar. Uma fotografia realista, que mescla o colorido das vestes militares e do luxo (ou luxúria) palacial, com os obscuros porões do submundo e da imundície daquele plebe ignorante. Ao terminar o filme, há uma sensação de incompletude, pois a trama não finaliza no último ato, mas demonstra uma continuidade da qual temos ânsia, mas à qual não teremos contato.

No passado, grande diretores, como Visconti e Fellini, formavam seu elenco com atores e atrizes dos mais diversos países. O que importava era que esses atores, com seu talento se adequassem às figuras retratadas nos filmes. Depois, dublavam tudo em italiano e uma obra-prima estava pronta. Milos Forman faz a mesma coisa neste filme, apenas deixa de dublar e consegue encontrar um idioma em comum entre todos os artistas.

Ele é um diretor que não está nos maiores círculos de discussão. Porém, se sua obra for analisada, ele não fica a dever em qualquer um dos filmes. “Sombras de Goya” é mais um exemplo. Milos Forman fez os mais variados estilos, desde o drama convencional, até o filme de época, gangsters e musical. É um diretor para ser notado e assistido, não apenas comentado.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Sombras da guerra e gigantes abatidos

Começam a aparecer filmes que têm como contexto a Guerra do Iraque. Assim como na época da Segunda Guerra Mundial, a batalha é mostrada nos filmes e o efeito do combate na população americana também. Na época da Guerra do Vietnã, havia poucos filmes a respeito, os quais apenas surgiram em maior número a partir da metade dos anos 70.

Fui assistir ao filme "No vale das sombras" (In the valley of Elah), dirigido por Paul Haggis e estrelado por Tommy Lee Jones, Charlize Theron e Susan Sarandon. Paul Haggis é um cineasta da moda. Fez os ótimos roteiros dos três últimos filmes de Clint Eastwood e dirigiu o penúltimo ganhador do Oscar, o duvidoso "Crash - sem limites".

Não sei se foi o meu excesso de expectativa, mas não gostei muito do filme. Atente para o fato que o filme não é ruim. Mas também não é um excelente filme. Talvez aconteça com ele o mesmo que aconteceu com "O segredo de Brokeback Mountain" (que injustamente perdeu o Oscar exatamente para "Crash"). Não havia gostado muito do filme de Ang Lee quando assisti no cinema mas, por algum motivo, ficou em minha mente. Com o tempo, a insistência de suas imagens em minha lembrança me aguçou a vontade de rever e, quando o fiz, gostei muito. Assisti ao filme de Haggis ontem e acordei pensando nele. Ainda não sei muito o porquê.

Tommy Lee Jones é um sargento do Exército, reformado, que fica sabendo que seu filho sumiu enquanto estava de licença da Guerra do Iraque. Logo no início descobre-se que ele havia sido morto e iniciam as investigações, que envolvem a polícia local, o Exército, seus ex-colegas de pelotão e o próprio pai. Isso é o que basta para darmos a idéia do que acontece.

Enquanto assistia, lembrei muito de outro filme. No início dos anos 80, o cineasta Constantin Costa-Gravas ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes por um excelente filme chamado "Missing - o desaparecido". Jack Lemmon fazia o pai que ia ao Chile para procurar o filho desaparecido pela Ditadura chilena de Pinochet. Os meandros burocráticos que Lemmon tem que enfrentar assemelham-se às dificuldades que o personagem de Tommy Lee Jones encara junto à polícia e, principalmente, ao exército americano. Em ambos os filmes pode-se perceber o afastamento do leitmotiv "onde está meu filho", para uma aproximação e mergulho na angústia daquele pai e centralização em seu papel.

Exclusivamente quanto ao personagem de Tommy Lee Jones, ele demonstra uma frieza contida, a qual parece que nunca será abalada. Mas este ator, acostumado a interpretar papéis contidos e inabaláveis (como o conhecido delegado federal em "O fugitivo", ou até mesmo seu papel em "Céu azul"), demonstra superação. Ele se mantém contido, porém seus olhos transparecem aquela angústia que mencionei anteriormente e percebemos que ele está a um ponto de ruir. Isso fica claro na cena em que ele tem que contar à sua esposa (Susan Sarandon) a morte de seu filho.

A metáfora traçada por Paul Haggis referente ao título do filme é duvidosa e levanto a questão. Em certo ponto, o sargento conta ao filho da policial que o ajuda (Charlize Theron) a história de Davi e Golias. Resumo: todos os dias, o gigante filisteu Golias desafiava alguém do exército israelita a descer ao vale de Elah para enfrentá-lo. Os hebreus, com muito medo, não desciam, e os filisteus humilhavam aquele povo devido à sua covardia. Até que aparece Davi, uma pequena criança, que decide enfrentar o gigante. Com apenas cinco pedrinhas, ele desce à planície e aceita o desafio daquele filisteu. Enquanto o gigante corre em extrema velocidade em sua direção, Davi permanece parado e, sem titubear, mira sua atiradeira e atinge com uma daquelas pedrinhas no meio da testa de Golias, que cai com o crânio rachado.

Aí eu pergunto: nesta leitura, quem seria Davi e quem seria Golias? Qual a intenção de Paul Haggis ao trazer este conto bíblico? Uma primeira suposição seria de um apontamento patriótico, no qual colocaria os americanos no papel dos justos israelitas lutando contra os bárbaros iraquianos, como se estes fossem o gigante Golias que todos temiam enfrentar. Ou seria o contrário, numa segunda opção, na qual retrata os americanos, armados com sua tecnologia e seus bilhões de dólares, como aqueles que são temidos por todo o mundo. Os iraquianos que, em sua maioria, são pessoas comuns que vivem numa civilização atrasada, têm que enfrentar com paus e pedras a invasão de seu território.

Lembrem que esta seria a segunda pedra na testa do gigante americano, pois os vietnamitas já lançaram a primeira há três décadas e racharam profundamente a alma yankee. Os acontecimentos narrados em "No vale das sombras" esboçam como os Estados Unidos sofrem atualmente devido à guerra. A mídia não divulga muito, devido talvez ao conhecido esforço de guerra, mas a indústria do entretenimento começa a expor sua visão.

Por hora, este foi o filme que assisti. Em breve, haverá outro dentro do mesmo contexto da guerra, que ainda não possui título brasileiro: Redacted, dirigido por Brian De Palma. Li críticas muito boas a respeito do filme e estou muito curioso.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Iwo Jima: dois olhares sobre a mesma dor


Sempre gostei dos filmes dirigidos por Clint Eastwood. Nos últimos quinze anos, foram lançados títulos elementares, como "As pontes de Madison", "Sobre meninos e lobos", "Menina de ouro" e o clássico "Os imperdoáveis". Li, na ocasião do lançamento de "Sobre meninos e lobos", a admiração que os europeus nutrem por ele. E concordo. Possuo certas reservas quanto a alguns aspectos de seus filmes, mas nada que tenha desviado minha admiração. Há alguns filmes de Clint Eastwood que ele conclui de forma equivocada. Mas é equivocada em minha opinião. Ele construiu a peça de acordo com suas convicções e levando em consideração aquele conclusão que ele pretendia nos mostrar. Bem, mas isso é outra discussão.

Recentemente, tive a oportunidade de assistir aos dois últimos filmes de Clint Eastwood. "A conquista da honra" e "Cartas de Iwo Jima" foram lançados no mesmo ano, no intuito de mostrar os dois lados da sangrenta batalha ocorrida na ilha de Iwo Jima durante a Segunda Guerra Mundial. Além da oposição dos olhares (o primeiro filme é pela visão dos americanos, enquanto o segundo é pela visão dos japoneses), há uma diferença na proposta. Esta diferença aponta a forma como cada um dos países encarava a esforço de guerra. Enquanto os americanos se apoiavam na mídia e na divulgação de seus heróis para arrecadar fundos para o financiamento da batalha, os japoneses se concentravam na determinação de seus soldados e no compromisso de proteger seu solo imperial.

Ao demonstrar os dois lados da batalha, onde os papéis de heróis e vilões se invertem ao trocar dos filmes, Clint aproxima-se de atingir certa isenção. Lembre que a identificação do espectador com os personagens se dá a partir do momento em que o próprio espectador consegue definir para "qual lado está torcendo". O pensamento maniqueísta fala alto no entendimento da trama e nos faz pensar: "Esses são bons, aqueles são maus". Porém, quando temos num curto período de tempo a possibilidade de fazer essa inversão, confundimo-nos nesta identificação e nos colocamos dos dois lados da guerra de forma igual. Na minha opinião, o diretor conseguiu escapar da cilada de ser patriota em "A conquista da honra" e ser documental em "Cartas de Iwo Jima". Ele acaba sendo menos patriota no primeiro, ao criticar a exploração sobre a divulgação do hasteamento da bandeira americana na ilha, e afasta-se do simples retrato das tropas japonesas para adentrar no sentimento familiar dos combatentes que, em alguns momentos, chegava a fazê-los questionar até que ponto valia a pena defender até à morte a sua pátria.

As cenas de batalha são impressionantes. No histórico de filmes de guerra, pode-se ver muitas batalhas, mas carregadas com certa pirotecnia que afasta do retrato realista que é possível ver nos dois filmes. Anteriormente, "O resgate do soldado Ryan", de Steven Spielberg, conseguia este feito. A cada cena, a cada plano, pode-se ver como era fácil ser baleado, ter um membro arrancado, ser morto. As balas voam soltas pelo ar, as bombas explodem de forma desajustada. Qualquer um pode ser atingido. A idéia que tínhamos nos filmes mais antigos de que o herói sobrevive no final após realizar sua missão é anulada. Permanecemos o tempo todo vigilantes, pois qualquer um pode ser atingido naquela terra de ninguém.

Quem procura muita ação pode ficar decepcionado. Os dois filmes são envoltos por tramas paralelas que podem incomodar aqueles que procuravam um filme de guerra nos padrões antigos.

Clint Eastwood se mostra cada vez mais um diretor eclético. Fez filmes faroeste e policial devido, como poderíamos dizer, a seu histórico como ator, que concentrou em grande parte estes dois gêneros. Porém, já criou suspense, drama, e agora estes dois filmes de guerra. É alguém que merece uma análise detalhada de sua obra.