domingo, 27 de janeiro de 2008

Negros, mulheres ou almofadinhas perfumados?

Certa vez, fui acusado de racismo. Eu trabalhava numa espelunca e um cliente me tratara muito mal. Engoli seco, como um bom atendente deve fazer e deixei o homem ir embora. Após a retirada dele, desabafei. “Folgado! Mal-educado! Pulha! Precisava me tratar assim? Foi apenas um mal-entendido!” Eu havia guardado os filmes dele que ele tinha deixado sobre o balcão. Ele estava separando para alugar, mas eu não sabia que eram dele. Ele tinha largado no balcão. As ordens que eu tinha era de guardar qualquer filme que estivesse sobre o balcão. Após ele brigar comigo, fui à cata de todos os filmes, os quais ele acabou levando. Isso foi na época do VHS total, mais ou menos início desta década.

Acontece que este homem era negro.

No dia seguinte, a gerente disse que eu havia sido racista. Que a “maneira” como eu havia me referido a ele tinha sido causada pela raça dele (e não pelo comportamento que ele tivera comigo). Eu sabia que aquela gerente não era um poço de boas intenções, então logo reagi. Após dizer-lhe tudo aquilo que eu pensava sobre suas acusações, peguei o meu boné e fui embora daquela espelunca. Nunca mais voltei. Eu era free-lancer, não possuia vínculos empregatícios. Eu deveria ter ido à polícia fazer uma queixa por calúnia. Mas não fiz isso.

Este episódio serviu para uma reflexão, a qual será utilizada no que será dito abaixo. Se aquele cliente que me tratara mal fosse judeu, eu teria sido repreendido da mesma forma? Ou japonês, ou índio, ou homossexual, ou árabe, ou marciano? Acho que não. Há uma fragilidade comportamental nas pessoas, uma insegurança congênita, que amedronta-as a contrariar ou criticar alguém de outra raça (principalmente a negra, por causa de nosso terrível passado – para não dizer, de forma pejoritava, ‘passado negro’), no receio de inverterem a situação e dizerem que aquelas críticas são devidas à cor da pele e não ao fato em si. Isso é um erro. Exatamente pelo fato de não ser afetado por esta hipocrisia, sinto-me tranqüilo para criticar quem quer que seja, não importa qual a cor, credo, preferência sexual.

E é exatamente por isso que me assunto com a cobertura da mídia a respeito das prévias para a presidência americana. Cansei de ver na televisão e na internet manchetes como “Obama é o preferido pela população negra da Carolina do Norte” ou “Hillary Clinton mantem-se na disputa graças ao voto das mulheres”. Esses candidatos não possuem propostas? Esses candidatos são apenas suportados por sua raça e sexo? Claro que não. Ou seriam os americanos um bando de ovelhas que apenas enxergam a superfície do candidato sem analisar sequer uma de suas propostas?

Pense realmente numa coisa: você acha que os Estados Unidos serão uma nação menos racista se elegerem Barak Obama para a presidência? Ou você acha que serão mais racistas se não o elegerem? Isso é uma estupidez e uma irresponsabilidade, principalmente da mídia. O foco da mídia está exatamente nesta luta de minorias reprimidas que tentam chegar ao poder – os negros e as mulheres. Isso está errado. A mídia deve se concentrar em analisar de forma construtiva as propostas dos candidatos. Sei que os especialistas em política fazem isso. Mas vejo o próprio Jornal Nacional apontar para simplificações, ao invés de aprofundar-se no tema. Vemos algumas rápidas informações de que os candidatos têm propostas para Educação, Economia e Empregos. Claro que eles têm. Mas não sabemos de nada.

O terceiro candidato, John Edwards, é todo bonitinho – diríamos que “uma cara de JFK”. Parece um galã de Hollywood, com seu cabelo arrumadinho e sua pele de bebê. Parece um garoto riquinho da Carolina do Norte, criado nos casarões de aristocracia local. Aí, se ele for escolhido para ser o candidato do Partido Democrata, nós diríamos que ele foi colocado lá pelos outros almofadinhas? Bem, parece que os almofadinhas estão em baixa, suplantados pelos negros e pelas mulheres. Se esta eleição for decidida por estas características e não pelas propostas de cada um, vejo um futuro temeroso pela frente. Seguindo o raciocínio da mídia, gostaria de saber: e as mulheres negras, votarão em quem?

Ao mesmo tempo, questionemos outra coisa: a mídia enaltece os votos de negros e mulheres nos candidatos porque isso realmente acontece, ou isso acontece porque a mídia se preocupa em apontar isso como fator preponderante? (essa é uma das famosas “diacronias Tostines”)

Pensar em tudo isso me fez lembrar do caso que relatei no início deste texto. Senti-me mais aliviado, pois lembro da pessoa que me fez tais acusações e apenas a enquadro entre aquelas que ainda acham que a forma de julgarmos e raciocinarmos neste mundo deve ter como parâmetro as diferenças entre as pessoas e não seus pensamentos.

3 comentários:

Denis disse...

Essa é uma questão muito delicada. Falar sobre raça (se é que existe mesmo), opçãp sexual e tudo mais, mexe com as pessoas.
Pelo que vi, não ocorreu nada demais. Ele teve uma ação não muito boa, vc ficou nervoso e descarregou. Claro que como cliente ele não deveria ficar bem e com razão poderia reclamar ao seu chefe, mas acusar de racismo é outra coisa.
Existe uma coisa complicada que é o estigma, a dor e as consequências de um passado que faz com que as pessoas tenham a pele e o sexo por exemplo como escudos protetores, mas também expositores das fraquezas ou questões como as que mencionei acima. Dessa forma, uma reclamação pode ser encarada ou incorporada como forma de discriminação, seja ela qual for. Para complicar, não há consenso sobre o que pode ser considerado como racista ou discriminatório. De fato há adjetivos ou expressões descaradas, mas muitas vezes estão mascaradas... Que diga o racismo no Brasil.
Essa não é a discussão no entanto.
Eu concordo parcialmente quanto ao que se coloca sobre a questão presidencial americana. A fonte de informação foi bem parcial.
Quem acompanha os candidatos e suas propostas, percebe que não há nos discursos, sobretudo o de Barack Obama a entonação de propostas raciais. Muito pelo contrário. Ele rejeita esse rótulo, e, apesar de ser negro e sendo conhecedor através de viagens na adolescência, ele é bem imparcial. Se a população negra de um determinado lugar o prefere, aí a questão é outra, que não comentarei aqui.
O mesmo digo de Hilary, apesar que acho que ela mostra bem seu lado feminista, mas isso é uma causa que ela trabalhou bem. É de certa forma um rótulo que ela explora, mas faz parte de sua proposta.
Acho que eles têm proposta sim. Já o republicano eu não comentarei pois não conheço suas proposta e só sua aparência.
É isso. Falei, falei...
Denis Vinny!

Hugo disse...

Boa Denis!! Minha crítica está exatamente em dizer que esses candidatos têm propostas, mas que a MIDIA não expõe isso, e sim se preocupa em enaltecer a questão racial ou sexual...

Valeu!!!

Thais disse...

Eleger uma mulher seria como se eles dissessem: não somos um país racista, somos legais...não importam as propostas, o caráter e conduta do eleito...